Quem Comanda o Salvamento? O Impasse Brasileiro Entre Estruturas Militarizadas e a Força Voluntária
Photo: GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Quando as águas sobem, quando a encosta desce, quando o fogo avança sobre o cerrado, uma pergunta que raramente chega ao debate público volta à superfície: quem, de fato, deve comandar o resgate no Brasil?
A resposta, aparentemente simples, revela uma trama institucional complexa. Corpos de bombeiros militares, Defesa Civil municipal, secretarias estaduais, forças federais como o Exército e a Marinha, ONGs especializadas e milhares de voluntários atuam — muitas vezes simultaneamente, nem sempre de forma coordenada — nos mesmos territórios atingidos.
Três modelos que convivem sem se encontrar
O primeiro modelo é o militarizado. Herdado da tradição das corporações de fogo, ele valoriza hierarquia, disciplina e prontidão permanente. Sua força está na capacidade de operar sob comando único em cenários caóticos. Sua fragilidade, no custo elevado e na cobertura desigual: enquanto capitais como São Paulo e Curitiba dispõem de estruturas robustas, municípios do interior do Norte e do Nordeste dependem de batalhões distantes dezenas de quilômetros.
O segundo modelo é o comunitário. Cooperativas, associações de moradores e grupos voluntários — fenômeno que cresceu visivelmente após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 — demonstram agilidade e conhecimento profundo do território. Chegam antes, conhecem os becos, falam a língua do lugar. Mas carecem de equipamentos, treinamento padronizado e, sobretudo, de integração formal com o poder público.
O terceiro modelo é o híbrido, adotado parcialmente por países como o Japão e a Alemanha, onde corpos profissionais articulam-se com brigadas voluntárias certificadas. Na Alemanha, o Technisches Hilfswerk mantém milhares de voluntários treinados e equipados pelo Estado, acionáveis em horas. No Japão, os bousai undou — comitês de prevenção de desastres de bairro — treinam populações inteiras e operam sob protocolos nacionais.
O que a experiência internacional ensina
Nenhum país de dimensão continental resolve essa questão com uma única estrutura. Os sistemas mais resilientes não escolhem entre militares e voluntários: definem papéis claros e protocolos de ativação. O voluntário alemão não substitui o profissional — ele o estende. O comitê japonês não disputa comando com o governo — ele executa a primeira hora, quando a estatística mostra que a maioria das vidas é salva.
O Brasil, em contraste, ainda opera por improvisação institucional. A Defesa Civil Nacional evoluiu com o sistema de classificação de risco e o programa de agentes comunitários, mas a articulação com a sociedade civil permanece informal, dependente da boa vontade de grupos locais e de gestores sensíveis ao tema.
Propostas concretas para uma estrutura nacional
Um modelo mais eficiente para o Brasil passaria por quatro medidas. Primeira: certificação nacional de voluntários, com currículo padronizado de primeiros socorros, operações em área de risco e comunicação de emergência, reconhecendo legalmente quem está apto a atuar. Segunda: integração obrigatória dos grupos comunitários aos planos municipais de contingência, com registro, equipamento básico e exercícios anuais conjuntos. Terceira: financiamento estável para a estrutura de proteção e defesa civil nos municípios, hoje refém de emendas e calamidades decretadas. Quarta: comando unificado de crise, com protocolo claro de escalonamento — quem manda na hora zero, quem assume nas horas seguintes, como se dá a passagem de bastão entre esferas.
A pergunta certa não é "quem", mas "como"
Reduzir o debate à oposição entre militares e voluntários é empobrecê-lo. O país precisa dos dois — e precisa, principalmente, que os dois saibam trabalhar juntos antes da próxima tragédia, e não durante ela. A experiência recente mostra que a solidariedade popular existe em abundância. O que falta é transformá-la em sistema.
Salvar vidas não pode depender do acaso institucional. Uma nação que convive com enchentes, deslizamentos, secas e queimadas em escala continental merece uma arquitetura de resposta à altura dessa realidade — com profissionais preparados, voluntários reconhecidos e um comando que saiba, em cada minuto de crise, exatamente quem faz o quê.